Não vá se perder por aí...

Amor Livre IV  

[minha postagem de fim de ano, 27 de dezembro de 2011, da qual gosto bastante]

 

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Em 2011...

aprendi uma porção de coisas, vivi demais demais, conheci (de conhecer de verdade) uma porção de gente interessante. Nada assim muito concreto, todos os aprendizados subjetivos, e pode ser que em 2012 eu aprenda tudo ao contrário e mude de opinião um montão de vezes ao longo da vida.
Digo com certeza que aprendi a assobiar (não o suficiente ainda para brincar de "qual é a música", e ainda assim só quando usando o aparelho móvel), e as outras coisas que conto abaixo pra vocês:

Tornei-me uma pessoa livre ao aprender que sou a única responsável pela minha felicidade. Não posso controlar o que acontece a minha volta, não posso controlar pessoa nenhuma, mas posso controlar o que sinto. Felicidade de verdade vem de dentro, e não oscila facilmente com os acontecimentos externos. É uma escolha que a gente faz todo dia, da gente com a gente mesma, escolher como vai encarar cada momento da vida da gente, e como vai lidar com os momentos de solidão e tristeza que invariavelmente aparecem de vez em quando. Seguindo esse raciocínio, também não sou responsável pela felicidade (ou infelicidade) de pessoa nenhuma, e aprender isso também é coisa que liberta a gente. Faço o que está ao meu alcance, mas não posso deixar de ser verdadeira apenas para agradar alguém. As pessoas também podem escolher de que forma irão encarar as decepções e os relacionamentos, e podem escolher se apegar ou não a alguma viagem em que entrem.
Aprendi coisa óbvia, que a decepção não existe sem expectativa. E o jeito melhor de viver a vida é mesmo não ter expectativa. Nem esperar pelo ruim nem pelo bom, não esperar por nada, porque assim a gente pode se surpreender com tudo que acontece, e os momentos todos ficam mais interessantes. Essa eu já sabia, mas não custa lembrar: a gente não tem como controlar as coisas que acontecem, deve ser desgastante ser uma dessas pessoas que precisam sempre cuidar de tudo. Primeiro porque não é possível e, se fosse, não teria graça nenhuma. Magina só que coisa mais sem graça, viver uma vida toda premeditada, tá vivendo pra que então se já sabe tudo que vai acontecer?
A vida, ela está aí, no nosso cotidiano e em todas as coisas, quer a gente dê a ela um significado ou não.
A morte, ela está aí, no nosso cotidiano e em todas as coisas, quer a gente dê a ela um significado ou não.
O fim não é motivo de tristeza, o fim traz sempre um começo de alguma coisa nova que a gente raramente sabe o que é. As coisas acontecem e terminam e começam e mudam e a gente acontece e termina e começa e muda e morre várias vezes nessa vida.
O ciúmes não é intrínseco ao amor. O ciúmes é outra coisa, o ciúmes é orgulho, é apego, é necessidade de posse e de controle. O amor, assim puro, não traz nada de ruim, o amor de verdade não faz sofrer, o amor de verdade só dá e dá e dá, é todo compreensão, é todo carinho, é todo querer bem, longe ou perto. Eu nessa vida não preciso de nada nem de ninguém, precisar tipo precisar mesmo, e não tenho direito a nada e não tenho direito a ninguém, e tudo que me vem é presente, e tudo que se vai é recomeço.
Todas as pessoas (e tipo todas todas) são presente pra gente, e têm uma porção de coisas pra dar e pra ensinar, de como é feito o babaganuche a como aceitar a perda.
Tudo passa (tô batendo nessa tecla, né), tudo tudo tudo passa, e se dar conta disso assim de verdade é o que dá mais força e tranquilidade pra aproveitar essa vida. Faz com que a gente não se apegue às tristezas, e também faz com a gente não se apegue às alegrias. Saber que um momento especial é fase, que a pessoa que veio vai embora, que amanhã de manhã vou ter ressaca. E saber que o momento ruim é fase, que depois que a pessoa for embora virão outras coisas, que assim que eu vomitar a ressaca vai passar.
Que cada pessoa tem suas vontades, tem sua forma de ver o mundo e de viver a vida. A gente pensa que sabe o que é melhor para os outros, mas o melhor para qualquer pessoa é sempre ter liberdade para viver o que acredita da forma que quiser. E uma pessoa não está me desrespeitando por não fazer aquilo que eu ou a sociedade esperamos dela.

Querer de verdade que todos sejam felizes, e fazer o possível pra que isso aconteça, sem deixar de ser sincera comigo, mas sem apego e sem egoísmo. Saber que nada é meu, e que eu é que sou do mundo.

 

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Amor Livre VIII (quarto e último vídeo-rascunho: "O Amor")  

Amor Livre VII  

Se as pessoas amassem mais com o coração que com o fígado elas sofreriam menos.

"Quero que seja livre e feliz" ao invés de "quero que seja meu" pouparia muita dor.

Manual da bêbada elegante  

Sim sim, ainda falta o quarto vídeo, mas o meu computador não têm reagido muito bem às minhas tentativas de conexão.

Hoje é aniversário do Guilherme, e em sua homenagem escrevi o manual que ele sempre diz que devo escrever: "manual da bêbada elegante".

Sabe, eu saio bastante e gosto de beber. A bebida geralmente funciona como uns óculos de lentes cor de rosa, as pessoas ficam mais bonitas e interessantes, eu me sinto menos tímida, mais relaxada e mais animada, acho ótimo.  ("você não deveria precisar disso mimimi" eu também me esforço para achar as coisas legais quando estou sóbria, mas com algumas é realmente muito difícil, a vida não tá fácil pra ninguém e esse mundo é cheinho de gente chata)
Mas já passei um pouco da idade de gritar na rua e essas coisas, acho que o mais elegante é agir como se não estivesse bêbada, sou pró.

Vão aí então umas regras que compilei, para evitar coisas desagradáveis, como ressaca moral, ou dar trabalho aos outros.

 

1 - Você não precisa dizer às pessoas o quão bêbada você está.
As pessoas que te conhecem podem perceber que você não está normal, e as que não te conhece vão apenas achar que você é muito simpática e engraçada.

2 - Tente perceber a vontade de vomitar antes que isso aconteça de fato.
Não é difícil, vêm sempre alguns avisos antes. Vá até o banheiro, faça o que tem que fazer, chupe uma bala e volte para a festa como se nada tivesse acontecido.

3 - Se cair, levante e continue andando.
Se tinha alguma pessoa olhando, diga a ela que você está bem e que ela não precisa se preocupar e aja como se fosse a coisa mais natural do mundo.

4 - Não use maquiagens que borram.
Batons escuros e cremoso e lápis gordurosos costumam borrar com o suor. Procure sempre produtos mais secos e, depreferência, em pó. Alguns rímeis à prova d'água podem resistir intactos até quando você acorda na manhã seguinte de uma noite de amor, se não coçar os olhos (e eu que uso lentes de contato há muitos anos sou bem acostumada a não coçar os olhos). Levar na bolsa um pó translúcido transparente e um pincelzinho de fibra ótica já resolve quase todos os problemas de brilho, suor e oleosidade.

5 - Não use a bebida como desculpa.
Eu não acho que a gente perca completamente a noção quando está bebâdo. Sempre que a gente faz alguma coisa que não devia, a gente sabe que está fazendo, e escolhe fazer mesmo assim. Imponha-se a regra de nunca chegar no dia seguinte e dizer: "fiz porque bebi". Diga "fiz porque quis" e arque com as consequências. Elas vião quer você estivesse bêbada, quer você estivesse sóbria.

6 - Não fique descalça.
Se o salto está machucando, sente-se, vá embora, troque ou aguente (a bebida ajuda a aguentar). Devia ter pensado nisso antes. Eu sempre levo uma sapatilha pequena e bonitinha na bolsa, ficar descalça é meio deselegante.

7 - Lembre-se de se perguntar, vez ou outra, se a pessoa com quem está conversando parece interessada.
Faça um esforço também para prestar a atenção e não interromper quando for a vez dela de falar. A não ser que seja uma pessoa que você não faz a menor questão de agradar. De vez em quando é libertador também encontrar uma pobre vítima para despejar todos os problemas emocionais numa bebedeira depressiva.

8 - Guarde um dinheiro para um táxi.
Num bolso separado, de preferência, e não mexa nesse dinheiro não importa o quanto você esteja com vontade de beber mais. Tem gente que dirige bêbada, acho que nem preciso falar nada quanto a isso, eu não dirijo nem sóbria, geralmente saio de carona. Mas às vezes dá vontade de ir embora antes, às vezes dá vontade de ficar mais, às vezes dá vontade de ir pra outro lugar, e é terrível ficar dependendo. Seja uma bêbada independente e não dê trabalho ou preocupação para ninguém.

9 - Pratique.
Eu felizmente tive a minha cota de vexames durante a adolescência, e com a prática aprendi boas regras que ajudam a previnir a ressaca moral (e algumas que ajudam a prevenir a ressaca física).

10 - Divirta-se
Se o seu conceito de diversão inclui dar escândalo, beijar outro cara na frente do seu namorado sem que este esteja de acordo, vomitar no tapede da sala e ficar lá deitada suando frio, quem sou eu para sugerir que faça o contrário? Esse não é um manual de regras da bêbada, e sim da bêbada elegante. E não vale a pena ser elegante se isso estragar sua diversão.


Hoje vai ter uma festinha na casa do Guilherme, se lembrarmos de mais dicas para o manual, volto aqui e completo esse post.

 

Amor Livre VI (terceiro vídeo-rascunho: "A Liberdade")  

...

 

Amor Livre V (segundo vídeo-rascunho: "O Vazio")  

... continuando...

 

Amor Livre IV (primeiro vídeo-rascunho: "A Felicidade")  

Dessa vez, um vídeo.

Tentei faz algumas semanas, ficou com quase meia hora, explicando demais coisas que não precisam de explicação, explicava pouco coisas que talvez não tenham ficado tão claras. Vídeo lento, com discurso enrolado e pausas para pensar, mas acho que não chegava a entediar.
Hoje tentei de novo, uma amiga estava aqui, dividi em quetro temas principais: "a felicidade", "o vazio", "a liberdade" e "o amor". Eles todos dialogam entre si, são sequenciais, se repetem, fogem do tema... Mas eu não tinha como preparar um roteiro, não ficaria natural. São vídeos fáceis de criticar, eu mesma depois de assistí-los encontrei exageros, incoerências, e até discordei de algumas coisas. Deixa, faz de conta que estou só conversando com uns amigos numa mesa de bar, sem pressão, não é a opinião final. É um vídeo-rascunho, porque esse é mesmo meio que um blog rascunho.


Amor Livre III  

Manual do amor livre para a mulher moderna (da década de 30)

http://www.beatrizvianna.com/arquivos_nvpa/Elogio%20ao%20amor%20livre%20amparo.pdf

 

, às 12h48 | [ ] [ envie esta mensagem ]

(intervalo nos posts de amor)  

A casa estava toda diferente. Os cômodos tinham mudado de tamanho e lugar, mas segui sem hesitar até a porta que era a minha.
Abri, e as coisas estavam exatamente como tinha deixado a última vez que estive ali, algumas reviradas e outras encaixotadas, de um jeito que só eu, e só naquele dia, poderia revirar e encaixotar. Tudo coberto com muito pó, eu nem me lembrava quanto tempo fazia que estivera ali, o quarto continuava iluminado como sempre, e onde estava minha cama? Me parecia natural que não estivesse ali, nas minhas lembranças daquele último dia não tinha cama nenhuma, estranho eu não conseguir me lembrar quando foi que tirei a cama de lá, estranho eu não ter nenhuma lembrança clara dos dias anteriores àquele último.
Percebi que as lembranças daquele dia também estavam embaralhadas, o quarto não era assim tão grande, e a porta do banheiro ficava aqui, e não ali, e tudo foi se ajeitando para se adequar mais precisamente ao que julgava fiel ao que fora.

Fiz um esforço para lembrar de mais, mas a única coisa clara era a visão da janela, pior que nem era a vista da rua que talvez me trouxesse qualquer coisa mais concreta, era o céu, o sol nascendo e eu olhando aliviada pensando que em poucas horas já estaria longe e já teria deixado tudo pra trás. Sentei-me e comecei a olhar os papéis empoeirados. Eu não sabia mais o que era tudo aquilo, o que deveria estar ali, minha nossa, que coisas essas todas que eu vivi e que acabaram, e pra que foi afinal que li tudo aquilo se de repente de nada mais lembrava, passado tanto tempo, e que pessoa era aquela que era eu que viva ali, e que ao mesmo tempo não era eu, era essa outra que pensava coisas das quais não me lembro, da qual fiquei tão feliz de me ver livre, mas que ao mesmo tempo nunca iria me livrar, porque ela virou eu, passadas todas essas coisas que ela passou, que nem sei que coisas essas, caminho esse que segui sem ter traçado nada que me trouxe até aqui. E que de repente me levou de volta.
Saí daquele quarto, fui olhar a casa.
Uma mulher de óculos deitada no sofá se assustou:
- O que está fazendo na minha casa?
(ao entrar eu não tinha notado que tinha outras pessoas na casa, e elas também pelo visto não me perceberam indo até o quarto quando cheguei)
- Eu vim buscar umas coisas que deixei naquele quarto. Por que vocês não mexeram em nada ali?
- Os outros cômodos nos bastaram, precisamos apenas dos outros dois quartos, aquele ali deixamos de lado.
Continuei andando pela casa, tinha umas pessoas na cozinha deitadas em um saco de dormir azul bem comprido, e a cozinha também tinha encompridado um corredor bem longo para comportar aquilo que parecia uma centopéia azul gigante e esquisita. As pessoas me olhavam feio, incomodadas que estivesse andando pela casa na qual elas moravam, porque o único cômodo a que tinha direito era aquele quarto.

Enquanto andava pela casa, passavam por mim vultos de uma época outra, vultos das pessoas que viviam lá no mesmo tempo que eu, o menino que vagava sombrio dizendo que tinha espíritos ruins por ali, que todas as manhãs chorava para mim e se desculpava, ou agradecia, e com quem eu brigava explicando que não sabia do que estava falando e que ele estava ficando doido, era ele agora um espírito, indissociável daquela casa assim como aqueles outros que a compartilharam comigo, com aquela que fui eu. Gente que não conheço mais, confusas que são as lembranças, que com o passar do tempo se tornaram pessoas outras, com outros papéis na minha vida e nas próprias vidas, e aqueles vultos me aparecendo como fantasmas daqueles que tinham sido e que não são mais.

Voltei para o quarto e abri uma mala que, na pressa da fuga, julguei ser um peso desnecessário. Não sabia exatamente o que encontrar lá dentro, as coisas foram aparecendo conforme as idéias iam surgindo, idéias vindas não sei de onde, eram roupas que não tinha certeza de já ter visto, com um cheiro muito forte de coisa guardada, aquele cheiro que tem o cobertor quando a gente tira do ármario depois de nove meses sem inverno (percebo agora que foi essa associação que fez com que lá dentro eu encontrasse apenas roupas de frio). Uma jaquetinha rosa de cotelê com uns brilhos meio azuis e meio dourados, dependendo do ângulo que se olhava, um paletó cinza estruturado, fui separando tudo, e pensando que ia lavar aquilo e provar, que poderiam muito bem me servir novamente, coisa estranha eu não me lembrar daquelas roupas, não saber mais quem era aquela menina que as usava, e que as usava com o meu corpo, essas roupas todas com a minha medida, feitas para o meu tamanho, para uma pessoa outra usar.
Encontrei também naquela mala roupas masculinas. Um casaco xadrezinho de vermelho com amarelo, um sobretudo roxo. Eram roupas ao mesmo tempo feias e ao mesmo tempo bem humoradas, que perteceram ao homem que era então meu melhor amigo, ou melhor amigo daquela menina, eram melhores amigos aqueles dois, e hoje nada têm que ver com a gente de cá dos dias de hoje. Pensei no homem provando as roupas e na menina se divertindo o estimulando a usá-las, os dois meio na dúvida se predominava o mal gosto ou a piada. Eu não me lembrava claramente da cena, mas me parecia coisa possível de ter acontecido, mas agora pensando bem, era possível que qualquer coisa já tivesse acontecido, e talvez eu estivesse fazendo confusão com aquele outro sagitariano que usava sobretudo e roupas roxas. Liguei para o homem que quando outro era melhor amigo da menina que era eu quando outra.
- Tem umas coisas suas, aquele casaco xadrez, o sobretudo roxo... lembra deles?
Sua voz do outro lado do telefone em nada lembrava o vulto, era clara, e sua imagem presente era colorida e nada embaçada como aquela que eu via andando pela casa ou vestindo aquelas roupas.
Ele riu, lembrando também da cena absurda que aquelas duas pessoas outras tinham vivido. Ou talvez não, talvez nada daquilo nunca tivesse acontecido, onde estaria agora aquela menina pra me confirmar? Pra me explicar o que foi que aconteceu, me contar como foi que chegou lá e como foi que veio parar aqui, em mim.

Eu lembrava um pouco da menina, ela era triste, comia pouco, fumava muito, prendia-se naquela casa mal assombrada, não queria o mundo. Queria sair dali mas pra um lugar outro que não era o que estava em volta daquela casa, daquele bairro, daquela cidade, daquele continente, daquele mundo. Ela não sabia muito bem pra que lugar queria ir, não queria estar em lugar nenhum que existisse, tinha vontade de ir embora e não sabia muito bem pra onde, pensava até em morrer, não sabia ainda que todo dia morria um pouquinho, e onde ela morria, nascia outra, que ia morrendo e nascendo e morrendo e nascendo, até nascer eu, que estou também ao mesmo tempo morrendo e nascendo, e que daqui a pouco não estarei mais aqui, pra me explicar praquela outra que virá.
Optou por fugir, matar nela aquela casa e aquela vida, e sem saber matá-la nela mesma.
Eu sentia medo daquela menina, medo de encontrá-la ainda em mim, deslocada e perdida, como aquele medo que a gente tem na adolescência quando percebemos em nós mesmos as características que não gostamos em nossos pais.

Acho que nem sei bem descrever o desespero que senti ao encontrá-la, e ao chegar tão perto de lembrar aquelas coisas todas que ela viveu e pensou e sentiu, e poder então comprovar que ela era eu e que eu era ela, e resolvi ir embora dali. A janela iluminada aumentou, e sobre aquelas ruas lá embaixo que não lembrava como eram, abriu-se um caminho de terra, rodeado por árvores e canteiros de flores, e uma bicleta estava encostada na parede.
Eu não sei andar de bicicleta, mas a vontade de ir embora era tanta que a peguei e fui, me equilibrando no vento, e ao olhar para trás vi as pessoas que lá estavam morando me olhando bravas e satisfeitas por eu estar indo embora.
Era um caminho largo, beirado às vezes por precipícios, precipícios que não me pareciam sombrios, bonito que estava o dia. Lembrei-me que minha irmã, antes de ser a menina que sabe andar de bicicleta, mas depois de ser a que não sabe, tinha dificuldade em manter a direção enquanto andava, e saía pedalando e trombando nos postes, nas paredes e nos carros, e daí comecei a ter dificuldade para me guiar, e pensei que poderia cair de lá de cima, mas isso não me parou, eu só sabia que tinha que seguir seguir seguir para longe dali, sem saber direito para onde estava indo ou se iria ou não cair, fui levando como pude.
E cada flor de cada canteiro pelo qual passava era uma pessoa que ia se embaçando e morrendo, e algumas renasciam em canteiros mais pra frente no meu caminho, e umas floresciam mais pra longe de mim, e me lembrei de um verão outro que não sei precisar o ano, em que uma menina outra que era eu mas que não sei precisar quem era, reencontrou um dos meninos que já tinha vivido naquela casa, que não era mais aquele menino e nem aquele vulto, e que também não era ainda quem quer que seja hoje, e que não sei mais quem era nem quem é, e fiquei pensando nessas coisas que vivi, que parece que não são da minha vida, embaralhadas que estão, como se não pudessem seguir qualquer lógica nem cronologia, como se nada nunca tivesse existido, ao mesmo tempo que não poderiam deixar de existir, pois são realidades que estavam então grávidas do tempo seguinte, a cronologia tem que ser precisa e o tempo tem que ser lógico, para que seja traçado esse caminho todo, aleatório que pareça, que me trouxe aqui.

É como um jogo que na infância brincava com meus primos, uma torre feita de peças de madeira, que a gente tinha que ir tirando as pecinhas da torre para empilhá-las no topo, com cuidado para não desequilibrá-la, e essa torre sempre subindo, e crescendo, e mudando, mas sempre a mesma torre feita com as mesmas peças.

Amor livre II  

Esse texto abaixo foi tirado do tumblr do meu primo, RastaNerd.tumblr.com, que tirou de uma postagem de facebook acho que de um tal Allfreedom Toné que tirou de não sei daonde ou não sei se escreveu porque o texto já vinha com uma introdução que não sei quem fez (e substituí aquela introdução por esta minha própria).

Eu li quando ele compartilhou a foto no facebook, e me identifiquei muito. Não tanto pelo jeito como é escrito, mas pelo que diz (sublinhadas as partes que mais gosto). É o que vivo e o que acredito nesse momento da minha vida, me parece a forma mais saudável, mais pura e mais verdadeira de se viver o amor. Digo nesse momento porque já pensei diferente, e sei também que mais pra frente sentimentos e minha forma de ver a vida podem (ou não) mudar. Desapeguei também de achar que tenho toda a verdade. Para mim funciona, me faz feliz agora. A vida da gente é assim, feita de um montão de agoras, bobagem tentar controlar ou prender qualquer coisa ou qualquer pessoa. A gente vai desfrutando assim e dando o que pode, e dividindo coisa que nunca acaba, que multiplica, sabendo que tudo uma hora passa. E que isso é bom :))

 

"Essencialmente Amor é energia, inerente `a natureza do ser, independente da presença ou conhecimento de um outro ser. Amar é natural. E somos dotados da habilidade de amor abstrato como amar uma idéia, um momento, uma sensação, um som, um desenho, uma dança, um gesto, um filme, um lugar, e também um bicho, uma pedra, uma planta, uma pessoa, um coletivo de pessoas… E é possível amar por amar, amar o amor, em toda sua radical abstração. Amor é Amor em si e encontra nos seres um canal de manifestação. Então é fato que amar, ou seja, pra se manifestar o amor em sentimento, não é necessário ter algo ou alguém a qual se atribui a manifestação deste amor: Amor é inerente `a natureza do ser.

Vou mais longe conceitualmente: Amor é o elo de ligação entre os seres, é o que nos une enquanto espécie e enquanto existência `a todos os seres e ao cosmos, então posso dizer que Amor é Luz Divina, e mais: Amor é Deus Dentro Manifesto, Amor é o corpo de Deus em Luz meniFESTAdo vivo dentro do ser, que assim se torna divino.

E é da natureza do Amor se maniFESTAr em afeto. Mas há basicamente duas naturezas de afeto: do vazio e da fartura. O afeto do vazio é quando o ser sentindo um vazio dentro, quer preenche-lo com o outro, em verdade num processo de substituição, que não é amor realmente mas se disfarça de amor pra existir e ser aceito, equívoco fonte de todo apego irracional que gera todo ciúmes, pior sentimento humano, fonte de violência, de castração, de manipulação maniqueísta e limitação da vida do outro em Meu, sentimentos muito interessantes pro capitalismo consumista e pras estratégias de manipulação das massas, porque o Amor Livre torna o ser indomável, imprevisível e auto-suficiente. Essa carência afetiva e espiritual travestida de amor em sua superfície, é o gerador do que se acredita ser convencionalmente pelo romantismo programado e previsível, algo despertado por alguém especificamente, particular entre duas pessoas e fatalmente com começo meio e fim nas novelas da vida. O afeto da fartura é quando o ser preenchido de Amor, que é livre e independente por natureza, conectando o ser com a essência divina deste elo de ligação, essa fonte de luz inesgotável que o transborda e pede pra ser compartilhado. Então o ser assim pleno quer pelo afeto compartilhar esse jorro de energia em fartura que não lhe cabe dentro. Está em contato com a fonte luminosa geradora da vida, energia impossível de se ter só pra si, de uma imensidão cósmica que não cabe delineada permanentemente numa limitação a dois em toda sua plenitude. Amor assim quando encontra em um outro ser específico o canal de manifestação, pode e deve estar focado numa relação a dois, não por apego nem por ciúmes, mas pra que se aprofunde e se desenvolva, num primeiro momento das descobertas, preservando a especificidade deste encontro único, sem se prender a essa condição permanentemente. O ser assim conectado com a essência da vida sabe que o Amor é a própria natureza divina pulsante em vida, com toda sua energia etérea e toda sua fisicalidade manifestada no corpo. O Amor é algo que acontece no cerne do ser inspirado, assim preenchido em sua essência divina por sua natureza transcendente, que ao encontrar o outro encontra na verdade o elo de manifestação física do Amor, que sempre pede pra se concretizar em afeto, a materialização desta energia etérea.

Sendo o amor uma energia etérea que se manifesta no corpo, é livre por sua natureza de ser, o que torna redundante o termo Amor Livre, se não for livre, não é Amor, é sintoma patológico, Reich explica.

Então partindo deste princípio podemos falar de sexo, a expressão máxima de amor, onde os seres que se amam se fundem num só corpo, realizando a experiência de unidade cósmica, religião em essência por nos religar ao uno primordial, ao mesmo tempo antropófoga no sentido de se dar de alimento e se nutrir do outro, adquirindo pra si parte das qualidades inatas do outro e doando ao outro parte das próprias. Falar de sexo fruto do Amor é falar de Magia em sua forma mais direta e literal, é revelar o eros da alma, é rito de iniciação ao libertar e desenvolver as potências do ser em sua imensa plenitude, sua Natureza Divina, os textos milenares sobre o Tantra Yoga evidenciam isso. E é certamente a mais direta prática libertadora do sistema de controle social, por desconstruir todas as amarras e armadilhas que nos prende a uma vida cotidiana fútil, em obediência inconsciente ao programa de vida previsível que mantêm a humanidade sob controle passivo. Wilhelm Reich dizia solidamente bem fundamentado que só é possível uma revolução social com uma revolução sexual, que a maior estratégia de dominação das massas é controlar, limitando a sexualidade do ser em casamentos monogâmicos permanentes e castrações proibicionistas com o argumento do pecado. E agora que tanto a igreja como o fascismo político está em decadência, a única arma do sistema capitalista de dominação é o ciúmes, insistentemente estabelecido como consenso pelas novelas da tv e pelo cinema estadunidense. É visível nas pessoas que limitam a sexualidade nos padrões de comportamento convencional, que o olhar não vê além das camadas superficiais, que o toque tem medo de sentir e que ao olha-las nos olhos, atravessamos nelas camadas que nem elas mesmas tem conhecimento. É visível a revolução nas vida das pessoas que se libertam sexualmente com base no Amor: o olhar se torna um olhar penetrante na alma, o toque afetivo causa uma inundação magnética em que o experiencía, camadas após camadas de proteção e inconsciência vão caindo por terra, toda sua vida passa a ser questionada sobre a ligitibilidade de cada elemento que a compõe e vemos surgir uma auto-consciência de profundidade indelineável.

Reich falava de Revolução Sexual, estou falando de Amor Revolução!"

, às 15h27 | [ ] [ envie esta mensagem ]

Amor livre  

Amar para dar, não para ter. Para transbordar, não para preencher.
Amar porque sobra, e não porque falta.

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Faz assim: vai, e não me leva. Vai, e vai só, mas não vai sozinho.
Estarei aqui, ou em qualquer lugar, estarei do teu lado.
Faz tudo que te deixa feliz, não te peso, não te peço nada. Só não me leva.

aniversário  

me dá uma sensação parecida com o natal.

Não é a percepção do passar dos anos. Eu na verdade até gosto de saber dos anos passando, ter uma data bem marcada assim que me permite olhar para trás e perceber o quanto evoluí em um ano. Eu gosto de envelhecer.

Mas eu fico me sentindo meio cobrada a ser feliz, parece que o dia PRECISA ser especial e diferente, e todo mundo tem obrigação de ficar desejando felicidade e essas coisas, tipo natal.
Eu tava com essa sensação na véspera do meu aniversário, e se tivesse tido tempo, teria sentado aqui e escrito um texto bem triste sobre um nó sufocante e um vazio que dão.

 

Mas daí o que aconteceu foi que recebi mensagens e ligações tão lindas e tão sinceras, de gente que é mesmo importante pra mim. Não foi aquela encheção de linguiça chata e votos obrigatórios e centenas de sms vazios e presentes sem sentido e festa cheia de estranhos.
Claro que a educação manda a gente dar parabéns pra todo mundo, e pessoas que não são próximas também se manifestaram, mas quem duvida que me desejam o bem?? Apenas as amigos que me amam disseram que me amavam (e isso é tão bom quando é de verdade assim) e só pessoas que importam disseram que sou importante para elas.

Aconteceram duas coisas muito ruins que fizeram com que meu dia se fechasse triste, ainda estou razoavelmente abalada pelas duas.

 

Foi um aniversário simples, sem grandes expectativas ou planejamentos ou eventos ou acontecimentos, mas talvez tenha sido o mais especial que já tive, porque deu a oportunidade de, em um mesmo dia, ver e falar com quase todas as pessoas que me são tão importantes.
Obrigada.

Acho que no ano que vem nem vou ficar com sensação ruim na véspera.

eu sou feliz.  

Eu fiz assim ó:

primeiro eu me conheci melhor, entendi quais são os meus desejos e necessidades, entendi as minhas limitações e as aceitei com carinho.

daí eu tentei entender as coisas todas a minha volta. Entender o que as pessoas e o mundo e essa nossa sociedade precisam de mim. Veja bem, é diferente: o que precisam de mim é diferente de o que esperam de mim. Esse último, depois que a gente aceita a si mesmo, não importa tanto.
Daí eu entendi as limitações do mundo e das pessoas e as aceitei com carinho.

 

Acho que as pessoas que não são felizes ou esquecem de se aceitar ou esquecem de aceitar as coisas em volta. Daí ficam ou se sentindo mal com o que têm dentro ou com o que está fora.
O que se espera da gente não serve perfeitamente em ninguém. Tudo fica querendo dizer o que a gente deve ser: que horas a gente deve acordar, em que deve trabalhar, quanto dinheiro precisa ganhar, o que tem que comer, como se divertir, como se vestir, o que consumir. Eu não acho que exista uma pessoa capaz de se adequar perfeitamente a essas expectativas de forma natural, sem se forçar ou se impor.

E tudo bem. Tá tudo bem se você não se encaixar. Também não adianta de nada perceber isso e achar que o mundo inteiro está errado, não dá pra ser feliz assim também.

Tenta fazer assim ó: aceita o mundo em que você vive, entende as regras, e escolhe um caminho que te sirva. Trabalha em mudar o que te incomoda, dentro e fora de você, mas também não tenta impor o seu caminho às outras pessoas. Tenta abrir mão de coisa ou outra.

 

Não sei se pra você funciona, a gente é todo mundo tão diferente que cada um deve encontrar seu caminho de ser feliz.
O meu foi esse. Quanto mais simples e mais de verdade melhor, né

"Um dia um caminhão atropelou a paixão"  

- oi?

Bergman e meu avô  

Tenho antipatia por Ingmar Bergman desde que namorei um sujeito que o tinha como diretor preferido (isso, por birra apenas). Comecei a assistir com ele Morangos Silvestres, e um filme cujo nome não me lembro, era o nome de duas crianças, mas as duas vezes dormi nos primeiros dez minutos de filme, porque estava muito cansada, e nunca mais tentamos.
Um ou dois anos depois, em algum festival, fui ao cinema assistir Gritos e Sussurros, e saí da sala pensando que meu então ex namorado era mesmo um cara muito chato com sua mania chata de gostar de filmes chatos só pra ser mais chato ainda.

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Vim hoje à tarde visitar meus avós, cortar o cabelinho deles e fazer um pouco de companhia.
Minha vó lia enquanto eu procurava algum filme que pudesse interessar meu avô. Assistimos "Deu a louca nos bichos" (chato o Brandan Fraser sempre foi, mas gente ele agora ficou feio também, né), no qual o sujeito é mestre de obras na construção de um condomínio que vai desabrigar animais, e então um grupo de gambás e urso e coruja e alguma outra ave que não me lembro, liderados por um guaxinim, aprontam altas confusões para fazer com que ele desista.

Passado esse tormento, começou em outro canal o filme Persona, do tal diretor de quem tinha tanto preconceito.
Ficamos assistindo, eu tava achando até muito bom. Uma atriz resolve parar de falar, então ela e uma enfermeira vão para uma casa de praia e daí as coisas acontecem. Eu estava bem tensa preocupada que tivesse alguma cena homossexual (vocês não imaginam o constrangimento que foi quando o levei ao cinema para assistir Brokeback Mountain), mas nada que eu tivesse imaginado poderia ser pior que um diálogo (ou monólogo, já que uma das personagens não fala, né) no qual a enfermeira começa a contar que estava na casa de praia com seu noivo, e ele foi fazer não sei o que e ela ficou na praia sozinha e conheceu uma moça, Katarina, e as duas estavam nuas tomando sol, passando bronzeador (e eu pensando "esse filme terá cenas sexuais, será que eu mudo de canal?") e então ela notou que dois homens estavam olhando, a amiga disse que deixassem olhar, ela notou que eram bem mais novos. Um deles se aproximou e então...

 


(os primeiros três minutos desse vídeo foram bem longos sentada ali ao seu lado)

 

e eu, já interessada no filme e achando que era uma boa chance de eu conhecer melhor o Bergman, não queria mudar de canal.
Pensei em virar pra ver se meu avô estava prestando atenção, ou se fingia que não estava nem notando, que estava dormindo... ficamos os dois ali caladinhos.

Poucos minutos depois dessa cena, ele começa:
"esse filme é bem... (eu tensa) interessante. É bom pra conhecer o comportamento (aí eu me surpreendi, "gente, ele está mesmo prestando atenção e nem está chocado de ver isso comigo?") dos animais."

E uns vinte minutos antes de o filme acabar, eu assistindo ali toda concentrada e emocionada, ele vira e diz "Quer apostar que quando o filme for acabar, vai aparecer um guaxinim???"

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Fazem 7 ou 8 anos que terminei esse namoro com o fã de Bergman (nossa, essa conta fez com que eu me sentisse meio velha), depois de todo esse tempo não é derrota dizer que gostei muito mesmo desse filme.