Uma estória contada com palavras



Alice deitou-se.
Sentia-se fraca, suas pernas não suportavam o peso. Estava arrepiada, e tremia, e queria estabilidade. Naquele momento era um passarinho. Novo, pelado, abandonado no ninho. Precisava de uma mãe para alimentá-lo, para ensiná-lo a voar. Precisava de alguém que lhe desse segurança, precisava de qualquer coisa na qual pudesse se apoiar. Seus joelhos não a sustentavam mais.
Ouvia ao fundo as vozes embriagadas, animadas, cada vez mais altas. Por que as pessoas se arrumam tanto? Por que é tão importante estar bonito? Àquela altura da festa, todos já estavam mostrando aquilo que guardam dentro de si diariamente. Exceto ela, que escondera-se.
Estava então deitada no chão do deque. Com sorte, ninguém sentiria sua falta. Mas sabia que naquela festa estavam uns 6 ou 7 caras que gostariam de trepar com ela.

Nossos relacionamentos são tão superficiais.

Naquele momento eles deveriam estar se perguntando com quem ela havia ido embora, desapontados. Talvez mais por terem perdido a disputa que por a terem perdido. As pessoas são muito vaidosas. Tirou os saltos. Ela era uma mulher bonita. Sempre fora, e sempre soube disso. Sempre soube também que aquilo não valia nada. Por isso sempre soube ser agradável, sempre soube fazer com que os outros se sentissem bem ao seu lado, sempre soube conversar sobre o que quer que as pessoas conversam. Sobre o que as pessoas conversam mesmo? Não podia se lembrar. Mas sabia que era sobre coisas sem importância.
Palavras nunca são suficientes para falar do que realmente importa. E as aparências sempre enganam. Sentia-se só. Ninguém jamais poderia alcançá-la.
Tentou se acalmar. Tentou pensar em como estamos todos próximos, unidos por algo muito maior e impossível de se perceber com nossos pobres e falhos sentidos humanos.
Tentou sentir-se conectada aos outros, tentou sentir aquela ligação. Mas não foi capaz de sentir nada por aquelas pessoas encaixotadas e empilhadas nos edifícios que cercavam aquela mansão. Aquelas pessoas assistindo televisão atrás daquelas grades tão retas, tão... perpendiculares. Alice queria formas imperfeitas e naturais, como seu corpo. Queria fugir. Sentia-se presa entre os prédios, sentia-se presa dentro de sua pele.
Sua respiração era agora uma sequência de suspiros, via com desespero seu peito subindo e descendo. Por mais que expandisse, nunca haveria espaço suficiente para toda aquela vida dentro dela. Alice a sentia movendo-se em seu interior, era viscosa e tinha cores que ela nunca havia visto.
Os convidados da festa, elegantes, preenchiam seus vazios com álcool, enquanto ela queria distribuir entre eles tudo aquilo que a percorria por dentro, e a sufocava.
Lágrimas começaram a escorrer por seu rosto, e molhar suas orelhas, e seus brincos, e seus cabelos, e então o chão. Estava aliviada. Tinha tanto o que por para fora, ela era tão pequena, tão frágil, tão só. Soluçava. Aquele choro estava saindo, mas... por que não se sentia melhor? Por que aquele peso continuava pressionando suas costelas?
Ouviu vozes próximas. Eram vozes masculinas.
E se algum deles passasse por ali?
Ele sentaria ao seu lado e perguntaria por que estava chorando. Ela inventaria uma desculpa qualquer, já que ninguém nunca a compreenderia mesmo. Ele mostraria preocupação e tentaria ganhar sua confiança, para levá-la pra cama. Mas Alice há tempos havia perdido a capacidade de confiar em quem quer que fosse.
Ao mesmo tempo, era incapaz de desagradar qualquer pessoa. Sabia que ninguém ali ficaria genuinamente preocupado com sua tristeza, mas também não gostaria de estragar o clima animado da festa.
Sentou-se, enxugou o rosto, calçou os sapatos, ajeitou os cabelos e foi para o banheiro retocar a maquiagem.

Nossos relacionamentos são tão frágeis.