...e a Tamara.

Outra das minhas personagens.

Prometi esse texto a um amigo, mas fiquei uns três dias sem conectar.

Aqui está.

 

 Tamara caminhava. Estava confusa.
 Costumava sentir-se deprimida nas manhãs seguintes às noites de bebedeira, mas esse talvez não fosse o motivo pelo qual a consciência pesava. Como saber se os sentimentos são reais?
 Como saber de onde vêem a depressão, a euforia, as vontades e as ações quando bebe-se tanto?
 Sabia, porém, que mesmo poderia ter dito não na noite anterior, mas não o fez. Lembrava-se de ter pensado claramente em Lia, e recusado a princípio.
 "Não se preocupe com ela", ele disse, "nós não temos nada.
 Não pensou em Pedro ou Antônio, pensou em Lia. "Nós não temos nada". Pedro poderia ter uma boa desculpa para redimir-se, mas não era suficiente para Tamara. Ela já havia sido traída, já havia sofrido, como fora capaz agora de trair outra mulher? Uma mulher que conhecia, uma mulher de quem gostava, uma mulher que a havia tratado bem?
 Acreditava que ninguém merecia aquele sofrimento, mas ignorou sua compaixão por Lia, ignorou seu amor por Antônio, e por isso sentia-se assim aquela manhã.
 Chegou ao ponto onde passava seu ônibus e parou.
 Não, não era o álcool o responsável pela sua tristeza. Assim como não foi o álcool o responsável pelo que fizera aquela noite.
 Pedro sabia fazê-la esquecer. Por isso Tamara protegia-se dele. Porque ele despertava nela um lado animal, impulsivo, imediatista e irresponsável, um lado do qual ela não gostava. Apesar disto, e talvez justamente por isso, foi incapaz de manter-se afastada.
 Lembrou que ao tê-lo beijado, pensou: "Abriu-se a caixa de Pandora", e perguntou-se por que, mesmo consciente de toda a confusão de sentimentos que viria depois, foi em frente com tudo aquilo. Perguntou-se como era possível sentir-se tão acolhida em seus braços, sendo que ele nunca lhe ofereceu nenhuma proteção.
 Ah, se ela conseguisse se manter racional ao seu lado... Teria evitado tanta mágoa, tantas expectativas vãs, tantas decepções...
 Mas não. A razão vinha sempre no dia seguinte. Foi quando percebeu que não havia traído apenas Lia e Antônio, mas a si própria.
 Sentiu-se traída pela sua dualidade, pela sua natureza humana. Se fosse capaz de ouvir apenas a razão, e ignorar os instintos, não teria feito nada de que se arrependesse. E se houvessem apenas os desejos, sem a moral, não haveria arrependimento para sentir.
 Ficou com raiva de si mesma, por ser tão cão quanto máquina, e por não ser nenhum dos dois.
 Seu ônibus parou no ponto. Ela subiu e sentou-se. Era uma manhã fria e cinzenta, e Tamara sentia-se cansada.
 Gostaria de saber como corrigir aquilo. Não poderia procurar Lia para contar o que aconteceu e pedir seu perdão, Pedro provavelmente gostaria de manter segredo. Teria que confiar no próprio cinismo quando a encontrasse novamente. Mas conversaria com Antônio. Não era ele que a fazia sentir-se triste, nem ao menos sabia se o havia traído, ou se ele ficaria chateado ao saber que ela esteve com outro homem. Mas talvez aquilo aliviasse um pouco aquele peso.
 E tentaria dar um basta na relação com Pedro, mas não acreditava que pudesse conseguir. Sabia-se insigna de confiança, a máquina não poderia apostar no cão.
 Não importa de onde venham, a depressão, a euforia, as vontades e as ações são reais, se existem por um instante sequer.
 Tamara fechou os olhos e alguns minutos depois dormia um sono profundo no chacoalhar do ônibus.